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sábado, janeiro 31, 2004
Andersson já tem substituto Camacho começa a ver os seus desejos concretizados. Um deles passava pela redução do plantel, recorrendo aos jogadores da equipa B para colmatar eventuais ausências. É precisamente isso que vai suceder com Manuel Fernandes. Com a saída de Anders Andersson, o sub-19 será, ao que tudo indica, o substituto do sueco. Nos dois últimos dias o internacional português foi chamado pelo técnico para integrar os treinos da formação principal e ontem mostrou algumas qualidades, nomeadamente na forma fria como finalizou várias jogadas. De resto, Camacho está perfeitamente a par das qualidades do médio. As referências são muito boas por parte de quem o conhece, quer o departamento de formação do clube quer os técnicos da Federação Portuguesa de Futebol, pelo que não causará surpresa se Manuel Fernandes aparecer numa próxima convocatória, caso Petit, Tiago ou Fernando Aguiar fiquem impedidos de jogar. Dois outros jovens que também estão a trabalhar sob as ordens do técnico espanhol são o avançado Vasco Firmino e o guarda-redes Ricardo Campos. Este último não escondeu o nervosismo durante alguns exercícios — típico de quem tem tenra idade —, a ponto de o treinador Daniel Gaspar ter de tranquilizar o jovem guardião. «Relax, calma», dizia, naquele seu jeito anglo- português. Hugo Pereira e Hélio Pinto também continuam a integrar os treinos. Finalmente Geovanni! Geovanni regressou ontem aos treinos sem quaisquer limitações, dois meses e meio depois de se ter lesionado nos gémeos da perna esquerda. O brasileiro não só mostrou ter debelado completamente a lesão como mostrou estar em boa forma, fruto da recuperação a que foi submetido pelo departamento médico. Por isso, tudo aponta para que seja convocado para o encontro com a Académica. Foi a 12 de Novembro de 2003 que Geovanni contraiu um agrave lesão muscular, decorria o Marítimo-Benfica que terminou empatado a uma bola. Dois meses e meio depois, e após várias ameaças de regresso, eis que o ex-Barcelona volta a estar totalmente apto para a competição. Foi a grande novidade no treino de ontem, e principalmente pela forma desenvolta como evoluiu no relvado número dois do Estádio Arnaldo Dias, em Odivelas. Apesar de ter estado ausente dos relvados por muito tempo, o brasileiro foi submetido a um intenso trabalho de recuperação levado a cabo pelo departamento médico de modo a evitar recaídas futuras. Por isso, é seguro que Camacho o chame para o jogo com a Académica, agendado para a próxima terça-feira. Não só pela confiança que o técnico deposita no avançado como pelo espaço de progressão existente entre o dia de ontem e a data do encontro com a Briosa. É mais uma opção para Camacho. Cristiano já é opção Outro dos regressos registados no treino de ontem foi o de Cristiano. O lateral-esquerdo lesionou-se no encontro com o Estrela da Amadora (vitória por 3-0) e daí até esta parte nunca mais jogou. À semelhança do compatriota, o camisola 5 treinou-se ontem sem quaisquer limitações e é opção para o sector defensivo. Recorde-se que Fyssas padece de uma lesão cervical e está em dúvida para o jogo com os estudantes, pelo que Cristiano pode muito bem aspirar a um regresso à titularidade. Armando Sá foi utilizado a lateral-esquerdo em Guimarães, mas a sua prestação poderá hipotecar a hipótese de repetição. Cristiano está na corrida. Não sei se voltarei Roger partiu ontem para o Brasil para representar o Fluminense, onde estará por empréstimo até Dezembro. Diz que não sai magoado, que decidiu em conjunto com o amigo Camacho e que vai ficar a torcer de longe pelos encarnados, que «ainda podem ser campeões». Falou-se também na dor provocada por Fehér... — Na hora em que regressa ao Brasil, consegue dizer o que falhou? — No futebol vivemos grandes momentos e momentos difíceis... Não saio magoado com ninguém, vou para o Fluminense para jogar, que é o que eu mais quero neste momento. Preciso de jogar. Volto a dizer que não estou triste com ninguém. — Voltou a não triunfar... — Há coisas que você consegue e outras que não. Às vezes não dá certo... — Mas o que falhou? — Há mais de dois anos que sou jogador do Benfica e tenho uma imagem excelente do clube, que tem uns adeptos maravilhosos e que sempre me trataram com muito carinho e me deram força. Principalmente nas horas mais difíceis. — Foi você que pediu para sair? — Não. Chegámos a um acordo. Conversei com o treinador, ele deu o aval e chegámos a acordo depois de conversarmos e dizermos um ao outro tudo o que pensávamos. Sempre como amigos. — Foram os adeptos o melhor que encontrou em Portugal? — Sem dúvida, principalmente porque esta é uma torcida que procura sempre que os jogadores estejam sempre no máximo dentro de campo. Conquistar esses adeptos é muito difícil, mas consegui fazê-lo. Para eles deixo um abraço e digo-lhes que têm um lugar no meu coração. — Este é o adeus definitivo ao Benfica? — Não sei. Na primeira vez saí dizendo até logo. Agora não sei, veremos. — O Benfica ainda pode chegar ao título? — Vou estar longe, mas vou torcer. Acredito que o Benfica ainda pode ter chances neste campeonato. São remotas mas tem. Temos agora este clássico onde o FC Porto, o Sporting, ou mesmo os dois vão perder pontos. Nada é impossível... —... — Não podemos esquecer também que na UEFA e na Taça de Portugal o Benfica tem uma palavra a dizer. A alegria está de volta Aos poucos vai regressando a normalidade. Volta a alegria, volta a concentração e o apoio dos adeptos é incontestavelmente enorme. No treino de ontem já se viram muitos sorrisos, Camacho inclusive, e boas jogadas. Até houve oportunidade para Andersson se despedir dos adeptos com um excelente golo. O trabalho é a melhor terapia e Camacho sabe disso melhor que ninguém. Por isso, o técnico espanhol agendou para ontem um treino bastante diversificado, de modo a devolver aos jogadores o ritmo de jogo e o gosto pelo golo. Mas sempre permitindo e patrocinando as pequenas brincadeiras nos intervalos. Durante quase duas horas, o plantel submeteu-se a vários exercícios de carácter puramente físico, progredindo depois com essa componente tão especial que é a bola, através de uma espécie de jogo do mata e terminando em variantes múltiplas de exercícios de finalização. Aumenta a concentração No decorrer da sessão, foi visível a melhoria significativa do estado de espírito do grupo encarnado. Os sorrisos de Tiago, Zahovic, Alex e Armando são disso exemplo, deixando-se levar pela boa disposição inconscientemente imposta pelos próprios por forma a ultrapassar os acontecimentos recentes. O público também tem sido uma ajuda preciosa. No campo número dois do Estádio Arnaldo Dias, em Odivelas, estavam cerca de 100 benfiquistas a apoiar os jogadores — no campo principal treinava-se o Odivelas e não estava praticamente ninguém a ver...—e estes foram correspondendo com acerto nos passes e remates à medida que o tempo ia passando. Nos primeiros exercícios de finalização — baseado em cruzamentos — todos, sem excepção, erravam no alvo, mas nem por isso se ouviam vozes de discórdia vindas das bancadas. Mas o tempo foi passando e a pontaria a melhorar. João Pereira, Argel, Sokota, Geovanni, apenas para citar alguns exemplos, começaram a arrancar os aplausos da manhã cinzenta, além das defesas que Moreira ia rubricando. Seguiram-se depois os exercícios de dois para um — um defesa para dois atacantes— e com os níveis de concentração cada vez mais apurados, os bons apontamentos emergiam com naturalidade e na retina ficaram os golos de Sokota, Geovanni e do jovem Manuel Fernandes. Sueco despede-se em grande estilo Mas de todas as jogadas, a do sueco Anders Andersson foi a mais marcante. Conduziu a bola, passou por um adversário com finta desconcertante, e quando surgiu o guarda-redes picou o esférico como se de um avançado de eleição se tratasse. O público vibrou, o camisola 7 agradeceu, levantou o indicador da mão direita e sorriu. Estava feita a despedida dos adeptos da águia. Não se pode dizer que sai por uma porta grande, mas foi a estrela por um dia. sexta-feira, janeiro 30, 2004
Uma calorosa ovação para embalar o regresso OS jogadores do Benfica chegaram a Massamá para o primeiro treino depois da morte de Fehér de rostos ainda fechados. O silêncio dos adeptos arrepiava e o negro da nuvens deixava o ambiente ainda mais cortante. Mas como disse Camacho, «a vida continua». Terá sido isso mesmo que o treinador transmitiu aos seus pupilos numa longa conversa onde também esteve presente o presidente Luís Filipe Vieira e o psicólogo do clube, Pedro Almeida. Terá sido o treino mais difícil da carreira dos jogadores do Benfica. A entrada nos balneários, o cacifo de Fehér vazio a recordar que ele já não estava ali, a memória de três dias loucos e a tristeza ainda bem viva. Na hora em que é preciso reagir, os jogadores foram recebidos por mais de uma centena de adeptos, que resistiram à chuva e ao frio, fazendo questão de dizerem presente e oferecerem aos atletas uma estrondosa ovação e muitas mensagens que certamente não passaram despercebidas. Colado à vedação estava um cartaz que dizia tudo: «Força amigos, estamos convosco.» Não se pense que durante o treino se viram gargalhadas ou alguns sorrisos, mas na medida do possível sentiu-se alguma alegria no trabalho. Já se disse por diversas vezes que a melhor homenagem a Fehér é os seus companheiros se empenharem para lhe oferecerem golos e vitórias. Quem assistiu à sessão de ontem não deve ter dúvidas de que é esse mesmo o espírito que está presente na mente dos jogadores do Benfica. Neste dia de trabalho onde só faltou o grego Fyssas houve muitos golos e algumas jogadas mais durinhas, o que prova que até ao jogo com a Académica— que se realiza na noite de terça-feira — haverá muito empenho... Numa altura em que tem de se falar de renovação e olhar-se, sobretudo, para o futuro, nem faltaram caras novas. Manuel Fernandes e Vasco Firmino participaram no treino de ontem, o que até se pode tornar um hábito, já que Roger e Andersson estão de saída e Camacho deverá ter de se contentar com os elementos que foram formados no clube e estão a actuar na equipa B. E como é de coisas boas que se deve falar este momento, destaque-se um grande golo de Mantorras, que não está ainda em condições de voltar aos relvados devido à delicada lesão que sofreu no joelho direito, mas tem vindo a trabalhar com tanto afinco que se começa a acreditar que não são vãs as suas palavras quando diz que regressará «mais depressa do que se pensa». Em nome de Miklos Fehér ENCHER a Luz na próxima terça-feira, numa singela homenagem a Miklos Fehér, é o próximo objectivo da SAD. E a julgar pela mobilização das gentes do futebol em redor do malogrado atleta, o jogo com a Académica vai mesmo transformar-se numa gigantesca onda de solidariedade para com o húngaro... Vencer a Académica e dedicar a vitória a Miki Fehér é desejo que todos os jogadores do Benfica acalentam no peito. As imagens da tragédia estão ainda demasiado nítidas na mente de todos e a tristeza infinita, expressa no olhar de cada jogador, ajudam a perpetuar o silêncio que desde a fatídica noite de Guimarães se interpôs entre o plantel e a imprensa. Porém, é um silêncio cúmplice, de respeito mútuo e impelido pelo momento de dor que dilacera o coração de jovens na flor da idade, que viram partir um companheiro do dia-a-dia de uma forma arrepiante, tão arrepiante que não deixará, no futuro, de influenciar a forma de encarar a vida de todos eles. Em sintonia com os jogadores, a SAD comprometeu-se a preparar o cenário para uma gigantesca despedida dos adeptos a Fehér e tudo aponta para que a lua-de-mel entre clubes rivais volte a fazer-se sentir mais do que nunca na terça-feira. Clube e Miki Fehér serão honrados Cunha Vaz, novo director de comunicação do Benfica, foi a única voz que se ouviu na fria manhã de ontem, em Massamá, para assegurar a intenção do clube em promover uma singela homenagem ao jogador húngaro. E garantiu o empenho dos jogadores, apesar do abalo psicológico que constituiu a súbita partida de Fehér. «É normal que os jogadores não estejam ainda a 100 por cento. Mas vão recuperar mais depressa do que possam pensar. A vida continua e na terça-feira os nossos jogadores estarão em condições de dignificar a camisola do clube a imagem do jogador», reafirmou. O director de comunicação optou por não divulgar ainda os contornos da iniciativa que vai ser levada a cabo no jogo comos estudantes, ficando, porém, a promessa de serem divulgados em tempo oportuno. No entanto, prevendo a adesão do público, a SAD já decidiu reforçar a venda de bilhetes no showroom e nas máquinas destinadas ao efeito. Além desta medida, os 16 postos de venda localizados junto do Centro Comercial Colombo estarão abertos a partir de amanhã. O objectivo é evitar a aglomeração de filas no dia do jogo. Roger acerta empréstimo O menino do Rio vai voltar a confraternizar com o clube que o viu crescer para o futebol. Roger, Benfica e Fluminense estiveram ontem em contacto e apesar de o acordo não estar ainda selado, está praticamente definida a cedência por empréstimo com validade de um ano. Os encarnados pagarão metade do salário. Quanto a reforços para Camacho, com o mercado a fechar dificilmente essa pretensão será concretizada. Sai Roger, sai Andersson e talvez Carlitos, mas dificilmente entrarão reforços para Camacho. O mercado de Inverno está a fechar (as inscrições têm de dar entrada na Liga impreterivelmente até à próxima segunda-feira) e dificilmente os encarnados terão tempo para fazer o que não obtiveram durante todo o mês de Janeiro: reforçar o plantel com jogadores de qualidade inquestionável .O treinador espanhol terá, como tal, de gerir o plantel que tem à sua disposição e, possivelmente, apostar com mais frequência nos jovens formados pelo clube. No que concerne ao empréstimo de Roger ao Fluminense (o segundo desde que chegou ao Benfica, em Dezembro de 2000) apenas ontem foi negociado entre os dirigentes de ambos os clubes. O processo ficou praticamente resolvido, embora ainda não fechado. É garantido que o jogador será emprestado pelo período de um ano, até Dezembro próximo, sendo que o salário deverá ser suportado em partes iguais por Benfica e Fluminense. No Brasil correu célere a notícia de que Roger viajaria hoje mesmo para o Rio, mas o mais provável é que esta manhã ainda marque presença no grupo de trabalho comandado por José Antonio Camacho, até porque ainda faltam definir alguns pormenores. Seja como for, é intenção do Fluminense (que acabou igualmente de contratar André Luiz, do Paris Saint-Germain) apresentar o menino querido da torcida tricolor no clássico Fla-Flu, que se joga domingo no Maracanã. Andersson e Carlitos também de saída Para além do brasileiro, Camacho deve ver o plantel emagrecer com as saídas de Andersson, com tudo bem encaminhado com o Belenenses [ver notícia detalhada na pag. 28] e de Carlitos, embora a deste último esteja mais complicada, uma vez que se gorou a possibilidade de mudança para um clube da Liga espanhola. Ainda assim, o atleta e o seu empresário, Manuel Barbosa, encontram-se a estudar algumas propostas em carteira e os contactos têm-se intensificado. Com o mercado em contra-relógio, nas próximas horas esperam-se novidades. Até porque Carlitos parece apostado em relançar a carreira fora da Luz. Mantorras goleador O camisola 9 caminha rapidamente para o regresso, apresentando-se, uma vez mais, destaque na sessão de trabalhos, na qual marcou três golos, dois deles merecedores de aplausos O avançado esteve em plano de destaque no regresso do plantel benfiquista ao trabalho, assumindo um papel de evidência durante a peladinha que encerrou o treino. Embora ainda seja prematuro avançar com uma data para o regresso definitivo à competição (o atleta viaja a Barcelona no dia 5 de Fevereiro, para uma última consulta com Ramon Cugat), a verdade é que Mantorras está a reagir muito bem ao tratamento que tem vindo a ser submetido em Barcelona, sendo essa uma evidência visível em cada sessão de trabalho. Ontem, por exemplo, o camisola 9 voltou a receber aplausos dos adeptos, graças aos golos, em grande parte, aos golos que marcou, dois deles de excelente execução técnica. Companheiros e o próprio treinador incentivaram Mantorras e felicitaram-no pela forma como se este se empenhou no treino, tendo recebido, inclusive, felicitações, pela execução técnica num dos golos. O camisola 9 dos encarnados fintou dois jogadores e, perante a saída do guarda-redes Hugo Pereira colocou a bola no ângulo mais distante da baliza. Logo a seguir, Mantorras deixou patente que caminha para a recuperação total dos problemas no joelho direito, apontando outro excelente tento. O avançado recebeu a bola com o pé direito, rodou e disparou fulminante com o esquerdo. Esse exercício encerrou a sessão de trabalho de ontem, que foi em grande parte dominada por exercícios físicos. Durante cerca de 40 minutos, o plantel correu em torno do relvado sob a orientação do preparador físico, Fernando Gaspar, que aferiu a condição física de cada atleta. quinta-feira, janeiro 29, 2004
Assembleia da República aprova voto de pesar pela morte de Fehér A Assembleia da República aprovou hoje, por unanimidade, um voto de pesar pela morte de Miklos Fehér, ao qual se associou o ministro Marques Mendes, em nome do Governo português. O voto, apresentando em conjunto por todos os grupos parlamentares, recordou a «trágica morte» de Fehér, falecido no domingo após o jogo como o Vitória de Guimarães, vítima de paragem cardio- respiratória. «A Assembleia da República não pode deixar de transmitir o seu choque, a sua consternação e a sua tristeza pelo sucedido, apresentando aos familiares e amigos de Miklos Fehér, bem como ao Sport Lisboa e Benfica, na pessoa do seu presidente, a expressão de sentidos pêsames.» Além dos deputados dos vários grupos parlamentares, intervieram no debate o ministro dos Assuntos Parlamentares, Marques Mendes, e o Presidente da Assembleia da República, Mota Amaral. «Este drama serviu para mostrar que tudo cede perante a morte, tudo é efémero», frisou o ministro Marques Mendes, expressando a sua homenagem ao jogador, em nome pessoal e do Governo. Também Mota Amaral fez questão de associar a este voto de pesar, lembrando que «poucos acontecimentos emocionaram tanto o país como este». Os deputados guardaram um minuto de silêncio em memória de Fehér, ao qual se associou toda a Direcção do Benfica, presente nas galerias da Assembleia da República, juntamente com o embaixador da Hungria em Lisboa. À saída, o presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira, não quis falar aos jornalistas e apenas Tinoco de Faria, presidente da Mesa da Assembleia Geral , sublinhou que «a Assembleia da República fez eco dos sentimentos do país». Benfica cedeu Roger ao Fluminense Depois de um atraso nas negociações devido à morte de Fehér, o Benfica anunciou esta quinta-feira ter concordado com o empréstimo do médio Roger ao Fluminense, clube que contratou também hoje André Luiz, que actuava no Paris Saint-Germain. Segundo o Jornal do Brasil, que avançou esta tarde com a notícia através do seu «site» na Internet, Roger deverá chegar ao Rio de Janeiro amanhã para ser «apresentado» aos adeptos no decorrer do encontro Fla-Flu agendado para este domingo. Roger, um dos mais talentosos jogadores do actual plantel do Benfica, não mereceu as opções de Camacho sendo conhecidos alguns desentendimentos entre técnico e jogador. Ouviu-se música até o Sol se pôr Passava pouco das quatro e meia da tarde quando, por fim, Miklos Fehér, nascido a 20 de Julho de 1979 em Tatabanya, próximo de Gyor, repousou na sua última morada, num momento acompanhado por um significativo pôr do Sol numa cidade triste, emocionada e coberta por um manto branco de neve, encomendado pelos deuses para a última homenagem a este jovem de 24 anos, cuja vida teve inesperado e incompreensível fim numa noite de chuva em Portugal. Fehér quer exactamente dizer branco na língua do seu país natal e o branco chegou a Gyor vindo do céu, em flocos suaves e finos, respeitando também eles a delicadeza de uma cerimónia de sentimentos profundos e arrepiantes, no dia do último adeus a Miki, como carinhosamente ficará para sempre nas nossas memórias. Gyor, cidade onde Miki viveu desde criança, acordou branca de neve. Amanhã estava escura, de um cinzento carregado, e fria nos seus cinco graus negativos. Mas quando se aproximou a hora de o corpo de Miklos Fehér chegar à Hungria, fez-se, subitamente, luz, o tempo foi clareando, clareando, até o Sol ficar descoberto e começar por dar ao céu um tímido azul clarinho, transformado depois num azul um pouco mais intenso e brilhante, acreditem, à medida que o corpo de Miklos Fehér fazia a sua última viagem, na urna coberta por um manto branco, apenas com singelas faixas com as cores da bandeira húngara e um cachecol do Benfica, entre o aeroporto de Budapeste e a capela Szabadhegyi, no bairro Joseph Atilla, em Gyor. Não eram ainda três da tarde (uma hora mais do que em Portugal) quando as largas centenas de pessoas presentes deram conta da chegada do corpo de Miki e da sua família mais próxima— pais, irmã e aquela que seria sua mulher, em Junho, se fosse possível apagar a noite de 25 de Janeiro de 2004.Aprimeira cerimónia foi intíma, de porta fechada, apenas com a presença da família. Muitos amigos Muitos dos seus ex-companheiros de equipa no Raba Eto, muitos jogadores de outras equipas húngaras (Ferencvaros, Debrecen...), companheiros de Miki na selecção, o actual seleccionador da Hungria e grande figura do futebol alemão, Lotthar Matthaus, o compatriota e ex-companheiro no FC Porto, Lipscei, o romeno e também compaheiro de Miki nas Antas e no Salgueiros, Panduru (igualmente ex-Benfica), muitos e muitos amigos, centenas de admiradores anónimos, gente de rosto visivelmente emocionado, aguardavam a sua vez de prestar a última homenagem a Fehér Miklos, como se escreve naHungria. A comitiva vinda de Portugal, da responsabilidade do Sport Lisboa e Benfica, seguia, nesta altura, em quatro autocarros, já pelas ruas da cidade de Gyor. As portas da capela abriram instantes antes de os principais dirigentes benfiquistas e todo o plantel do futebol profissional da Luz chegarem ao local da cerimónia e é fácil de compreender como nem todos puderam entrar para assistir às últimas homenagens a Miki. Entrou Luís Filipe Vieira, entrou o ex-presidente Manuel Vilarinho, entraram Fonseca Paula Pinho, tudo dirigentes benfiquistas, entraram também Eusébio e José Antonio Camacho, pudemos ver alguns jogadores como Nuno Gomes, Zahovic, Sokota, Miguel, Alex... Já o céu estava cada vez mais azul e o Sol cada vez mais luminoso e o branco de Fehér permanecia na neve intensa como se de propósito tivesse chegado para tornarmais suave e delicada a última estrada de Miki. Sublime adeus O equívoco foi desfeito depois de informação errada: Fehér era católico e não ortodoxo. A cerimónia vestiu-se de uma dignidade arrepiante. Foi o que pudemos testemunhar dentro daquela capela redonda, igualmente branca, onde por cerca de uma hora permaneceu a urna com o corpo de Miki, coberta pelo tal manto branco em cima do qual ficou o cachecol do Benfica. De um lado e do outro as bandeiras do clube encarnado e da Hungria; à frente, colocada num pequeno pedestal, a fotografia de Miki com a camisola da selecção magiar. Nas mãos de sua mãe, Aniko, igualmente o seu retrato, com a camisola do Benfica, a imagem que não deixou de acarinhar por um segundo, expressando a sua dor também nas lágrimas e na intensidade com que acompanhou, cantando, a canção posta a tocar já na parte final da cerimónia, de Nagy Lajos, aquela de que Miki tanto gostava — cantou-a com Gabor, seu amigo e jogador do Santa Clara, quando estiveram juntos pela última vez, na quarta-feira anterior àquele domingo tão absurdo, e cantou-a, com os pais, quando um dia, perto de completar os 19 anos, partiu de Gyor para a aventura em Portugal. A tua canção, Miki, tocou, o teu pai, também Miklos e também Fehér, fechou os olhos, a tua mãe cantou-a, a tua irmã, Orsolga, também, apertando a mão da tua noiva, Adrienne. Etudo apenas uns instantes antes de, por fim, repousares, sob aquele imenso mar de olhares de respeito, admiração e dor, bem por baixo de um espesso manto branco de neve. Ouvia-se música e o Sol desaparecia no horizonte. Olhos e silêncios que falam! Que dia mais longo. As 152 pessoas que acompanharam a última viagem de Fehér, de Lisboa a Gyor, não mais esquecerão as emoções da despedida bem como o silêncio e o olhar que falava dos húngaros. Ainda o sol não nascera e já todos os que quiseram acompanhar o féretro de Fehér à Hungria se encontravam no aeroporto da Portela. Adrienne e Orsolga, noiva e irmã de Fehér, chegaram num carro diplomático da Embaixada da Hungria. Pesarosas e com fotos do jogador nas mãos e coladas ao peito. O Airbus 320, baptizado de Grão Vasco, levantou voo às 8.30. Foi a viagem possível para os 152 passageiros. Gerida quase sempre em silêncio, em especial por parte dos jogadores e dirigentes do Benfica e da família de Fehér. À chegada a Budapeste, capital da Hungria, três horas e um quarto depois, quatro autocarros e várias viaturas oficiais esperavam a comitiva portuguesa em plena pista. Uma das viaturas pertencia à embaixada portuguesa. A urna foi retirada do avião. Alguns viraram a cara. Os pais aguentaram firmes. A carrinha funerária arrancou de imediato. Junto de Fehér a família, que fez uma passagem por Tatabanya, terra natal, seguindo para Gyor, local do funeral. E aí, o inolvidável momento de encontro entre portugueses e húngaros. Emoção! Uma das imagens mais marcantes é a recepção à comitiva portuguesa à chegada à igreja. Milhares de húngaros aguardavam, por trás de umas grades. Fez-se um enorme e ensurdecedor silêncio. O olhar magiar perturbava. Um olhar simples, cândido, húmido. Ao mesmo tempo reconfortante. Naqueles olhos o desejo de comunhão e partilha de sofrimento. O tempo parecia ter parado. Absolutamente perturbador. A cerimónia é linda, simples, comovente. No final, Fehér foi enterrado ao som de música clássica. E as lágrimas soltam-se ao ver a mãe com a foto do filho ao peito e a balançar o corpo ao ritmo da música. Estava a embalar o seu menino lindo. Estava a adormecê-lo. Para que dormisse em paz. Depois do adeus, o regresso a Lisboa. O ambiente no grupo era, agora, menos tenso. Com Fehér a descansar na sua última morada, as feridas começam agora a sarar. Hoje é dia de trabalho. E lá no Céu, Fehér será o primeiro a festejar cada golo do Benfica. Até sempre Fehér. Ficarás nos nossos corações. Mindöröleleé. Dedicar título a Fehér O dia de ontem foi também de discursos emotivos. Do ministro do desporto, do presidente da federação húngara e do companheiro de selecção Urban Florian. O mais emotivo acabou por ser o de Luís Filipe Vieira, que prometeu a Fehér que a equipa erguerá ao céu o troféu de campeão. Mais cedo do que muitos pensarão. Com a voz embargada e a necessidade de fazer algumas pausas, Luís Filipe Vieira leu um discurso emotivo. Um adeus sentido e a promessa de que mais cedo do que se possa pensar a equipa estará a dedicar-lhe o título de campeão. Mas foi o ministro do Desporto húngaro, Gyuresány Ferenc, o primeiro a dar o mote: «Vim despedir-me em nome do povo da Hungria. Sabias o teu caminho e não são todos que conseguem chegar onde tu conseguiste. Tu chegaste à equipa de Eusébio. As crianças que jogam das ruas da Hungria sabem o que é chegar ao Benfica. Ninguém merecia isto. Agora, sabemos que vais muito longe. Tem cuidado contigo até chegares ao Céu. Lá, tenho a certeza, todos cuidarão bem de ti. Boa viagem. O Céu vai guardar-te.» Também o presidente da federação húngara de futebol, Bozóky Imre, se mostrou inconformado com o triste desaparecimento do avançado. Lembrou as passagens de Fehér pela Selecção e sentenciou: «Rezemos por Fehér. O mundo de futebol perdeu um grande homem e jogador. Descansa em Paz.» Emoção de Florian «Lutámos juntos. Partilhámos tristezas nas horas más e rimos nas horas boas», começou por desabafar Urban Florian, central da selecção magiar, também ele com um discurso muito sentido. «Tinhas muitos planos. O relvado era o teu presente. O teu futuro, o palco do teu talento, agora perdemos tudo. Quero esquecer, mas aquelas imagens na televisão não me saem da cabeça. Já depois dos jogos da selecção era difícil dizer adeus. Agora é mais difícil ainda. Sempre tivemos inveja de ti, por seres tão bom jogador. A camisola da selecção ficava-te tão bem. Trabalhavas muito e irias muito longe. Não haverá um só jogo da selecção em que não pensaremos em ti. Eras boa pessoa, eras e serás um ídolo para os pequenos. Todos falarão, no futuro, muito de ti», rematou, com a voz embargada face à dor imensa de ver um amigo partir. As palavras de Luís Filipe Vieira Miki! Faço contigo a viagem que jamais imaginei e com o coração destroçado. Levo-te de regresso à tua pátria, onde ficarás em PAZ mais cedo do que queríamos. Comigo vão aqueles que te amam, a tua família, o teu mais valioso património, e estão os teus companheiros de trabalho no Benfica. Vão ainda alguns dos que comigo estão a levantar o nosso glorioso clube — o Sport Lisboa e Benfica —cuja camisola 29 vestiste sempre com humildade, garra e vontade de vencer. Vão também os senhores jornalistas, que em boa hora decidiram fazer connosco esta viagem pungente e dramática. Nestas últimas horas, toda a nação benfiquista, os desportistas em geral, companheiros e dirigentes de clubes adversários, e os portugueses, deram as mãos e juntaram lágrimas e orações por ti. Nestas últimas horas, todos nós, e eu próprio, nos temos perguntado: —Porquê, Miki? Não há resposta para este mistério. A resposta possível verifica-se nas lágrimas que já quase secaram em todos nós, na revolta que sentimos de te ver partir. A outra resposta será dada pelo Benfica. Caíste no teu campo de batalha, generoso e valente como sempre foste, dentro e fora do campo. Ofereceste a todo o mundo e à nossa consciência, antes dessa partida, um sorriso de herói e de menino, que guardamos na alma como um tesouro inexpugnável. O Benfica vai e está a fazer tudo para ser digno da tua memória e do teu exemplo. No dia em que formos campeões, não duvides que os teus companheiros, todos nós, ergueremos a taça para os céus e brindaremos à tua luta e à atitude de campeão que viveu sempre na tua alma de Homem ímpar. Esse dia não demorará. Será o teu dia e o dia da grande família benfiquista, que na próxima terça-feira, no Estádio da Luz, te dirá um último obrigado sentido e justo e estará recolhida em silêncio com os teus companheiros de trabalho. Obrigado, Bom Amigo! Até sempre, Miki Estou feliz por seres meu filho A última conversa entre mãe e filho, no cemitério de Gyor, foi outro momento de grande emoção. Lido, em húngaro, por uma amiga da família, já que os parentes de Miklos Féher não estavam em condições de o fazer, o diálogo, traduzido pela TVI, calou fundo no coração de todos os que o escutaram. «Pois meu querido filho, nós, a tua família, a mãe, o pai, a tua irmã Orsolga, o avô, a avó, o Jancsi, a Ildiko, a Dalma e a tua noiva Adrienne, de quem gostavas tanto, viemos cá, não para dizer adeus mas para conversar contigo». Assim se dirigiu Aniko, a mãe Féher ao seu filho, no cemitério de Szabadhegyi. Em pranto, Aniko recuou até a infância do filho, «para lembrar os momentos felizes» das suas vidas. «Eras uma criança bem educada e simpática. Gostavas muito de brincar e principalmente de jogar futebol. Lembras-te meu filho, como gostavas de jogar futebol com o teu paizinho perto do lago e depois com os teus amigos? Já naquela altura gostavas de dizer que um dia ias ser um futebolista muito famoso. Nós sorrimos quando disseste isso a um jornal, com apenas 10 anos», expressou. As passagens e a força emocional do texto dispensam comentários: «Os conselhos sobre futebol, aceitaste apenas os do teu pai. Eu e a tua irmã estávamos sentadas (na cozinha), sem dizer uma única palavra pois o futebol é coisa de homens e as mulheres não percebem nada disso, diziam vocês. Nos outros aspectos da vida aceitaste os meus conselhos, seguiste sempre a palavra da tua mãe e eu tentei ensinar-te os princípios da bondade, amor, respeito e honestidade. Estou muito feliz por seres o meu filho...» Outra passagem que reflecte virtudes de Féher: «Como te preocupaste com a tua irmã e cuidaste dela. Tinhas tanto orgulho em ter uma irmã tão bonita e inteligente e ela também admirava muito a força do irmão. Lembras-te como estavas a preparar, com muita ansiedade a tua ida para Portugal e te tornaste profissional? Estavas com medo e ansioso. Para aliviar esse medo e essa ansiedade cantávamos a canção do Bikini. Também agora no fim, vais ouvir essa canção.» Referindo-se a Adrienne, a namorada. «Para completar a tua felicidade, acabaste por conhecer o amor da tua vida e nós, a família, acompanhámos tudo com grande felicidade, pois parecia que Deus vos tinha feito um para o outro. Vocês estavam a planear um futuro em conjunto e nós estávamos muito felizes com o vosso amor.» Outra recordação amarga: «Seguiram-se anos de muito sucesso, mas nunca te esqueceste das tuas origens. Mãezinha, disseste, nunca vou esquecer que comecei aqui no Szabadhagy, perto do lago e agora estou a jogar com futebolistas que só via na televisão...» Os exames não mostram tudo A morte de Fehér levanta questões e dúvidas que não são de hoje. Os atletas fazem suficientes e adequados exames no início das épocas? Quais são os obrigatórios? Qual o papel do Centro de Medicina Desportiva nos clubes de futebol? A BOLA investigou e chegou a uma triste e dura realidade: por norma há rigor médico, mas existe sempre uma percentagem de alterações e anomalias que os exames não conseguem detectar. De acordo com a legislação, decreto-lei 345/99, existem dois níveis que orientam o tipo de exames que o Centro de Medicina Desportiva deve fazer aos atletas antes do início de cada época. O primeiro enquadra qualquer pessoa que pretenda filiar-se numa federação desportiva e, neste caso, é obrigatória a realização de um raios X ao tórax, um electrocardiograma e análises à urina. O segundo nível diz respeito aos atletas de alta competição e assume várias vertentes, mais dispersas e complexas. Os exames obrigatórios passam a ser análises à urina e sangue, electrocardiograma, raios X ao tórax e ecocardiograma, sendo dos clubes a responsabilidade de os realizar, que podem, ou não, recorrer ao Centro de Medicina. Os exames complementares — que podem decorrer de alguma anomalia detectada nos exames de base — também podem ser realizados no Centro de Medicina Desportiva, se este organismo tiver os meios técnicos necessários para o fazer, ou noutro local indicado pelo próprio clube. A única obrigatoriedade nacional é a realização de exames padronizados para atletas de alta competição, sem que o local seja especificado. ABOLA contactou várias pessoas ligadas a este domínio e todas confirmaram que os clubes de futebol são muito cuidadosos nestes exames de início de época. Os atletas são profissionais e normalmente muito bem acompanhados e o Estado não sente necessidade de tutelar estes indivíduos. Qualquer situação anormal ou ilegal teria de ser enquadrada no âmbito da medicina do trabalho. O caso das selecções nacionais é diferente e a relação com o Centro de Medicina Desportiva rege-se por protocolos assinados com as várias federações desportivas. Cada modalidade necessita de exames e abordagens diferentes para os seus atletas. Objectivo é reduzir o risco A realização destes exames, por muito minuciosos que eles sejam, não permite detectar determinadas alterações nos atletas. Por exemplo: uma arritmia que se manifeste sempre facilmente aparece referenciada num electrocardiograma, mas quando se manifesta esporadicamente pode nunca ser detectada. Existem também anomalias congénitas difíceis de detectar. Os exames são rigorosos, quer sejam realizados no Centro de Medicina ou por iniciativa dos clubes de futebol, mas continua a existir uma pequena percentagem de casos que podem motivar morte súbita. O objectivo é tentar reduzir essa percentagem. quarta-feira, janeiro 28, 2004
ADEUS FEHÉR Fehér foi sepultado em Gyor às 15h10 O corpo de Miklos Fehér foi hoje sepultado em Gyor, cidade húngara onde nasceu o malogrado jogador do Benfica. Na cerimónia fúnebre, marcada por um ambiente de profundo silêncio, estiveram presentes milhares de pessoas, entre os quais todos os jogadores e elementos da equipa técnica do Benfica, membros da direcção do nosso clube e do Governo, assim como vários representantes de clubes portugueses. O Desporto húngaro também se fez representar ao seu mais alto nível, com as presenças do ministro húngaro do Desporto e do presidente da federação húngara, os quais discursaram na capela mortuária de Gyor, enaltecendo as qualidades humanas e futebolísticas de Fehér. Também o presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira, fez o uso da palavra no referido local, tendo destacado o brio profissional, os valores humanos e as capacidades desportivas do malogrado atleta. «O Benfica está a fazer tudo em tua memória e no dia em que formos campeões vamos levantar a taça em tua memória e nesse dia não morrerás», disse Luís Felipe Vieira. «Esse dia não demorará. Será o teu dia e o dia da grande família benfiquista, que na próxima terça-feira, no Estádio da Luz, te dirá um último obrigado sentido e justo e estará recolhida em silêncio com os teus companheiros de trabalho», afirmou, de voz embargada e "coração destroçado". O avião que transportou os restos mortais de Miki Fehér aterrou em Budapeste, capital da Hungria, por volta do meio-dia, no final de uma viagem de três horas e meia desde Lisboa. O ponto de partida do cortejo fúnebre, que foi composto por quatro autocarros e várias viaturas, iniciou-se em Budapeste (capital da Hungria), passou por Tatabánya, a terra natal de Fehér, e terminou em Gyor. O regresso à capital portuguesa das 152 pessoas que viajaram para a Hungria, a fim de presenciarem o enterro de Fehér, terá início ao final da tarde. «Quando formos campeões levantamos a taça em tua memória» (Luis Felipe Vieira) O presidente do Benfica, na igreja de Györ, despediu-se do seu atleta e assegurou que o nome de Fehér nunca será esquecido e que no «dia em que formos campeões levantamos a taça em tua memória.» «Fehér sempre vestiste a camisola do Benfica com garra e vontade de vencer. Agora, estamos todos aqui presentes – desportistas, companheiros, dirigentes, portugueses, juntos e unidos. O Benfica está a fazer tudo em tua memória e no dia em que formos campeões vamos levantar a taça em tua memória e nesse dia não morrerás», assegurou Luís Felipe Vieira. Entretanto, o corpo de Fehér já foi enterrado no cemitério de Györ, na Hungria. Teve início a cerimónia fúnebre de Fehér Acabou de chegar, à capela mortuária de Györ, a urna com os restos mortais de Miklos Fehér, acompanhado pela comitiva, formada por várias dezenas de pessoas, que querem prestar a última homenagem ao internacional húngaro. Enigma presidencial na despedida O presidente do Benfica afirmou ontem à noite que a morte de Fehér o faz «repensar muita coisa». Num discurso algo enigmático e pontuado pela emoção, Luís Filipe Vieira deixou recados e pareceu questionar o seu futuro como líder. No final de uma intensa maratona emocional que durou desde a noite de domingo, quando Miki Fehér caiu no relvado do D. Afonso Henriques vindo a morrer pouco depois, o presidente do Benfica encerrou as portas do Estádio da Luz, abertas ao público desde anteontem, com um discurso emocionado e contundente. Filipe Vieira deixou em aberto a sua continuidade no cargo para que foi recentemente eleito: «Tenho uma maneira de estar na vida e não é o Benfica que me vai mudar. Isto fez-me repensar muita coisa. Que nenhum benfiquista leve a mal o que vai suceder no futuro, mas devem entender que sou humano e há alturas na vida em que temos de parar.» Pouco antes, Vieira clamara contra o facto de «as pessoas, no futebol, só se unirem quando há acontecimentos destes», lamentando que «no dia a dia isso não suceda». As palavras do presidente surgiram depois de mais um dia de intensas emoções no Estádio da Luz. Milhares de pessoas quiseram prestar a última homenagem a Miki Fehér, que hoje é trasladado para a Hungria. O povo aguentou firme na rua, à chuva, enquanto dezenas e dezenas de personalidades ligadas à vida pública portuguesa iam passando pela sala onde a urna do jogador esteve desde anteontem. Ao início da noite, uma comitiva do FC Porto composta por José Mourinho, Jorge Costa e Reinaldo Teles deteve-se pouco menos de dez minutos diante do caixão. Este momento funcionou como exemplo mais vivo da comunhão dos últimos dias entre gente de todos os quadrantes do futebol português. Um autêntico milagre operado por um acontecimento que fez mergulhar o Benfica e o país desportivo em dor profunda. Já anteontem ficara o abraço entre os presidentes de Benfica e Sporting; cachecóis de dezenas de clubes portugueses compunham impressionante cenário de cor no átrio da entrada principal do Estádio da Luz. Perto das onze e meia da noite, hora a que fecharam as portas, um adepto aproximou-se da urna e expandiu uma raiva que não conseguiu conter. «Meu querido, meu querido, como é possível partires assim aos 24 aninhos?» No fundo um resumo do que todos calámos ou sussurrámos desde domingo à noite. O caixão com o corpo de Fehér foi em seguida transportado para o aeroporto de Lisboa, onde tiveram de ser cumpridos os preceitos legais para a trasladação. Centenas de adeptos estiveram na Portela mas não puderam sequer espreitar a urna, que durante a noite permaneceu na capela mortuária do aeroporto. Esta manhã parte um charter com 185 pessoas que vão acompanhar o funeral do jogador em Gyor, a sua cidade natal na Hungria. Até sempre, Miki! Estará sempre connosco O momento é de consternação, de homenagem a Miklos Fehér que hoje deixa Lisboa para sempre. Parte, mas ficará eternamente na recordação dos benfiquistas, dos colegas de profissão. José Antonio Camacho garante que o grupo terá de continuar a trabalhar como se o húngaro estivesse presente. O rosto de José Antonio Camacho não disfarça os momentos difíceis que tem vivido nas últimas horas, desde a fatídica queda de Fehér no relvado de Guimarães. Entrevistado pelo jornal espanhol Marca, o treinador do Benfica não escondeu que conheceu na Cidade-Berço o «momento mais complicado» da sua carreira, garantindo que «chorou de raiva e de impotência ». Ontem de manhã, na Luz junto do féretro de Fehér, ainda com os olhos inchados e com a voz rouca, Camacho traçou para os jornalistas aquilo que espera o grupo de trabalho após a dura perda do companheiro húngaro. «Neste momento o balneário está destroçado, todos os jogadores estão afectados face ao que aconteceu, mas está mais unido que nunca. Vamos continuar a treinar e a fazer tudo como se o Fehér estivesse connosco, porque no fundo ele estará connosco durante toda a vida. Não tenho dúvidas de que vamos tê-lo na memória toda a vida, independentemente de onde venhamos a estar. Tenhamos cinco ou cem anos vamos recordá-lo, porque conviveu connosco e morreu subitamente», anuiu. Para já o tempo é de homenagem: «Os companheiros sabem que isto é anormal, quase nunca acontece, mas calhou-nos a nós viver uma coisa tão infeliz, ver um companheiro com a camisola do Benfica cair no relvado. Amanhã [hoje] será novamente um dia muito difícil.» «Temos de nos levantar» Camacho ainda não esqueceu os momentos de aflição vividos em Guimarães. Na entrevista ao jornal Marca não escondeu algumas críticas ao quarto árbitro, João Vilas Boas, que tentou retardar a entrada dos elementos do banco de suplentes no relvado. Mais a frio, mais racionalmente, o treinador lembrou o que lhe passou pela alma. «É normal ver um jogador cair no relvado, mas estamos sempre à espera de o ver levantar no momento seguinte. Quando nos apercebemos que os minutos passam e ele continua tombado, então começa a aflição. Quando algo não está bem um minuto a mais pode fazer a diferença. Na altura, vimos que não reagia e pensámos logo que seria uma situação muito difícil para ele, como veio a acontecer» Amanhã, a equipa regressa ao trabalho em Massamá, é tempo de seguir em frente. «Temos de ver a morte de Fehér como algo que servirá para unir ainda mais o grupo, o Benfica... porque a vida vai continuar. Agora temos de cuidar muito da parte psicológica, temos de nos levantar ser fortes e pensar que tudo o que acontece do balneário também conta com a presença de Fehér... os companheiros têm de lutar também por ele», concluiu o treinador. porque a época continua... NESTA altura de profunda tristeza para a família benfiquista e para o País, importa perceber como vai reagir a equipa treinada por José Antonio Camacho. A época continua, os compromissos desportivos estão em agenda e existem grandes desafios que os jogadores e os dirigentes têm de enfrentar e com urgência. O maior será, sem dúvida, unir o plantel em redor do futebol. E, neste contexto, existem alguns casos pendentes. Roger é um deles e nos próximos dias terá de ficar decidido o empréstimo do jogador ao Fluminense. No Brasil decorrem negociações para que Roger receba o dinheiro que o clube carioca lhe deve. É praticamente só o que falta para que a transferência seja consumada, pois existe — ou existia — disponibilidade dos encarnados para o negócio. Carlitos também tem possibilidade de ir jogar para Espanha e aguardam-se novidades para breve. Por outro lado, os dias que se seguem irão mostrar se Luís Filipe Vieira reforça o plantel antes do fecho das inscrições. O prazo limite é na segunda-feira e não resta muito tempo para o fazer. Uma situação ingrata para o presidente do clube e da SAD, ainda a recuperar do choque e já na iminência de assumir novamente as rédeas do destino encarnado. O jogo desta jornada, frente à Académica, foi adiado para terça- feira e, neste momento, o treinador espanhol apenas pode contar com Sokota para a posição de ponta-de-lança. Nuno Gomes está lesionado, Fyssas também. Muitos problemas que precisam de soluções. O Benfica está de luto... mas a época continua. Último adeus na Hungria O ministro Bagão Félix e o secretário de Estado Hermínio Loureiro representarão hoje o Governo na Hungria, para onde o féretro de Fehér será trasladado. Um avião fretado pelo Benfica transportará 185 pessoas no último adeus a Miklos Fehér. A concentração está agendada para as 6.45 horas de hoje, no aeroporto da Portela, em Lisboa. Presença garantida a de toda a equipa, técnicos e staff, bem como dirigentes do Benfica. Mas porque o luto está longe de se cingir aos encarnados, muitas outras personalidades fazem questão de acompanhar Fehér nesta última viagem. Por parte do Governo, seguem viagem Bagão Félix e Hermínio Loureiro. O Instituto Nacional do Desporto será representado pelo seu presidente, José Manuel Constantino. As câmaras de Lisboa e Sintra estarão representadas pelo vereador Moreira Marques e pelo presidente Fernando Seara, respectivamente. Manuel Quaresma, secretário-geral da Federação, Manuel Marques, Alberto Henriques (APAF) e Joaquim Evangelista (Sindicado Jogadores) são outros dos membros da comitiva. Alverca, Boavista, Belenenses, V. Guimarães e Sp. Braga serão clubes que se farão representar. Tal como representantes, por regiões, das casas do Benfica, membros das claques, jogadores húngaros em Portugal, futebolistas de vários clubes, personalidades de ligação clubística ou Manuel Vilarinho, ex-presidente. O avião deixará Lisboa às 7.30 horas. Quatro horas depois deverá aterrar em Budapeste, onde vários autocarros levarão a comitiva até Gyor, a 140 quilómetros. O regresso a Lisboa terá início ao final da tarde. Recordações para família e Museu Em Gyor já se encontram os pais de Fehér. Refira-se que a família pediu ao Benfica para levar as mensagens mais significativas que os adeptos foram deixando junto à urna do atleta. O restante irá para o museu do Benfica, onde haverá um espaço exclusivo de homenagem. Superar todos os fantasmas PEDRO ALMEIDA, psicólogo do Benfica, tem uma árdua tarefa à sua frente: a de ajudar todo o grupo de trabalho, individual e colectivamente, a lidar com o luto. «Cada caso é um caso», defende o psicoterapeuta Vítor Cláudio. Primeiro há que avaliar a forma como cada jogador irá gerir o luto, depois intervir e esperar que o tempo dê a sua habitual ajuda. E como a psicologia não obedece às regras da matemática, a avaliação fazse diariamente. Importa é estar atento e intervir. E ajudar o grupo a superar todos os fantasmas. O psicoterapeuta Vítor Cláudio, também professor de Psicopatologia do ISPA, colega do psicólogo do Benfica, Pedro Almeida, recusa traçar cenários sobre a forma como o grupo de trabalho do Benfica vai reagir à morte de Fehér. «Dependerá sempre de factores individuais. O primeiro desafio do psicólogo do Benfica é avaliar a ressonância que o luto está a provocar em cada um dos jogadores, sendo diferente de caso para caso, conforme a proximidade com Fehér ou a personalidade de cada um», começou por comentar. O processo começa, assim, por recuperar cada uma das peças do puzzle. Depois, há que, «se necessário, equilibrar toda a estrutura, como um todo». Importante que se esclareça que «não existe uma relação pré-definida de causa/ efeito» entre a morte de um ente querido e a forma como o luto é vivido. Dependerá da soma das reacções individuais e da gestão das mesmas numa perspectiva de grupo. O luto ganha aqui contornos específicos. «Houve a perda de um colega em acção. A morte de um jovem, ainda por cima atleta. Ninguém estava à espera. Foi ainda uma morte ao vivo. Tudo isto desencadeia emoções violentíssimas. Há que respeitar o tempo interno de cada jogador. Tempo em que entra confronto com a perda», frisou. E com a vulnerabilidade? «Correcto. Os jogadores confrontaram-se com a própria morte. Soltaram-se alguns fantasmas. Afinal, morrer não é exclusivo dos velhos e doentes. Uma situação destas destapa todos os medos. Há um confronto com o fim, com a vulnerabilidade de cada um. Também aqui tem de haver uma intervenção, conforme as necessidades de cada um.» Cuidados com o pós-funeral O luto tem várias fases. VítorCláudio considera que o período pós-funeral pode ser «ainda mais violento». «No pré-funeral há uma acção. Dolorosa, mas uma acção. No pós, há uma quebra». E é a partir daí que o processo entra numa fase decisiva. São várias as etapas, desde o choque, a incredulidade, o confronto com a morte, o processo de gestão e a racionalização da perda. Alertando a comunicação social para o papel que também lhe cabe, até «por questões éticas e deontológicas», termina com um apelo: «O recato é bom conselheiro. Deixem o homem gerir o seu próprio sentimento.» Luís Filipe Vieira e o último «adeus» a Fehér A urna do malogrado jogador Miklos Fehér já abandonou o Estádio da Luz, tendo sido transportada para o aeroporto de Lisboa, de onde amanhã seguirá, no avião fretado pelo Benfica, para a cidade natal do jogador, Gyor, na Hungria, onde será sepultado. Minutos antes de o corpo do jogador ter seguido para o aeroporto, o presidente benfiquista, Luís Filipe Vieira, falou com os órgãos de comunicação social, tecendo, visivelmente emocionado, as últimas palavras no «adeus» ao futebolista falecido no passado domingo. «O Miki vai-nos abandonar... Vai sair pela última vez por esta porta, mas vai ficar eternamente ligado à nossa instituição», começou por afirmar o presidente, antes de reiterar a decisão de que «a camisola 29 mais ninguém a vestirá», decisão que «ficará registada em acta na reunião de direcção do Benfica». «Valia a pena estar no futebol pelo que senti e vivi, em termos de solidariedade, nos últimos dois dias», prosseguiu Luís Filipe Vieira, aproveitando o sucedido para se debruçar numa reflexão mais aprofundada sobre o fenómeno do futebol em Portugal. «Infelizmente no futebol só quando surgem acontecimentos destes é que as pessoas se unem e tentam trazer ao de cima tudo o que têm de melhor. Infelizmente no dia-a-dia não é isso que sucede e vale a pena as pessoas reflectirem. É isso que irei fazer, juntamente com a minha família, para pensar o que será, em termos futuros, a minha presença no Sport Lisboa e Benfica», revelou, não escondendo o sofrimento que toda esta situação lhe provocou e abrindo o coração aos benfiquistas. «Foi algo que me marcou muito e não o escondo a ninguém. Sei o que vivi após a morte dele, porque estive presente e fui, se calhar, a única pessoa que esteve muito perto dele e que o sentiu. Tudo o que desabafei irá ficar entre mim, ele e o médico. Espero cumprir tudo o que lhe prometi. Isso é o mais importante.» «Que isto sirva de exemplo, sobretudo aos benfiquistas: há valores na vida que são muito mais importantes que uma bola. E que o Fehér fique marcado dentro de todos nós. Têm de pensar, também, que há pessoas que têm formas de estar na vida e eu tenho uma que não é o Benfica que vai mudar. Tudo isto fez-me repensar muita coisa. Que nenhum benfiquista me leve a mal, mas têm de entender que sou humano e que há alturas na vida em que temos de parar», referiu, antes de deixar um voto de solidariedade para com a família de Fehér. terça-feira, janeiro 27, 2004
INFORMAÇÃO À COMUNICAÇÃO SOCIAL Neste momento de profunda consternação de toda a Família Benfiquista, a primeira palavra de conforto é devida aos familiares de Miklos Féher. O Benfica perdeu um Atleta de eleição, os Benfiquistas perderam um dos seus ídolos, mas uma família húngara perdeu um filho. É nosso dever não o esquecer. Mas é neste tempo de tristeza que os verdadeiros Homens se revelam. E se o Futebol mostrou que é de Homens que vive, também é justo que reconheçamos a nobreza de carácter de todos quantos quiseram connosco partilhar e dignificar este momento de dor. Assim, não podia a direcção do Sport Lisboa e Benfica deixar de agradecer publicamente aos dirigentes, atletas, técnicos, "stewards" e massa associativa do Vitória de Guimarães, ao corpo de Bombeiros Voluntários, ao INEM, à Polícia de Segurança Pública, ao corpo hospitalar, incluindo, obviamente, médicos, enfermeiros, auxiliares e administração, ao povo anónimo que na Cidade Berço nos quis manifestar solidariedade, à comunicação social em geral, à Federação Portuguesa de Futebol, à Liga Portuguesa de Futebol Profissional, aos Clubes Desportivos que, independentemente, da sua grandeza, foram de uma solidariedade a toda a prova, às Autoridades da República e à massa associativa do Sport Lisboa e Benfica. Chegou ao conhecimento desta direcção que um número significativo de sócios sugeriu que a camisola número 29, com a qual Miklos Féher serviu o nosso Clube, não voltasse a ser envergada por qualquer outro atleta. Por ser de inteira justiça, o Clube decidiu satisfazer a pretensão em causa, comunicando que a mesma passará a fazer parte do acervo do Museu do Sport Lisboa e Benfica. Aproveita a direcção do Sport Lisboa e Benfica para informar que o plantel, a equipa técnica e os corpos sociais do Clube acompanharão Miklos Féher à sua última morada, na Hungria. Lisboa, 26 de Janeiro de 2004 Até sempre escreve-se com todas as cores O nevoeiro que durante todo o dia pairou sobre Guimarães deixou mais carregado ainda o ambiente de pesar que se vivia a cada canto. Homens e mulheres, novos e velhos, unidos por uma profunda tristeza pela morte de Fehér. Mais significativo sentir que o menino húngaro que morreu em pleno relvado fez pelo futebol português o que todos julgavam impossível: unir os adeptos de todos os clubes. Um mar de gente esteve horas a fio junto à saída do hospital Senhora da Oliveira, cada pessoa vestida com cores dos mais variados clubes. Portistas e benfiquistas abraçados a gritarem Fehér. Camisolas do Sporting ou do Moreirense a darem um pouco de verde a todo aquele arco-íris. Todos, mesmo todos a prestarem uma sentida homenagem ao atleta. Quando o carro funerário deixou o hospital todos gritaram o mais que podiam o nome de Fehér. Muitas palmas à mistura enquanto se aproximavam para verem o caixão coberto com a bandeira do Benfica e um ramo de flores envolvidas num cachecol do FC Porto. Fehér provou-o: há momentos em que a rivalidade não faz sentido... Romaria na Luz Quando, às 12 horas, se abriram as portas da entrada principal da Luz, já várias centenas de benfiquistas aguardavam pela oportunidade de assinarem o livro de condolências. Muita gente trazia flores, que foram enchendo o salão. Com muitas mensagens: de turmas, de empresas que trabalham na Luz, de militares, de gente do futebol, de tanta gente anónima. O preto do luto casou com as cores de tantos clubes. Como o verde, o azul, ou branco de vários cachecóis. Unidos no vermelho que ontem foi de muita dor. Irrepreensível o respeito recíproco entre as pessoas. Não houve ponta de rivalidades. Até pai e filho caminhavam com as cores do Benfica e Sporting. Foram milhares as pessoas que acorreram à Luz. Que esperaram horas para assinar o livro de condolências, que esperaram horas à chuva intensa pela chegada de Fehér. Houve até quem não conseguisse aguentar e desfalecesse. Duas senhoras foram mesmo assistidas por um membro da Assistência Médica Caduceus após terem desmaiado. Muitas horas em pé, sem comer, e muitas emoções à flor da pele. Mal o carro funerário passou na segunda circular, não mais pararam os cânticos para o Benfica e Fehér. No final da noite, três a quatro mil pessoas entraram estádio dentro, acreditando que a urna de Fehér seria colocada no centro do relvado. Puro engano. No centro do relvado foram colocadas velas, bandeiras e cachecóis do Benfica. Na penumbra, as pessoas pareciam estar num templo, em sofrimento, oração e contemplação. Mais tarde, ouviram pelo sistema sonoro que teriam de abandonar o recinto, já que a urna de Fehér não iria para o relvado. Saíram, lentamente, ainda em recolhimento. Às 1.30 horas as portas da entrada principal foram fechadas, quando centenas de pessoas ainda queriam assinar o livro de condolências e homenagear Fehér.Mas tinha chegado a hora da família, finalmente, poder velar o corpo em sossego e recolhimento. Miki, Miki, Miki! ARREPIANTE. Toda a equipa em choro compulsivo, abraçada em redor da urna de Fehér. «Miki, Miki, Miki», gritaram. Um grito que veio do fundo da alma. Com Camacho, Filipe Vieira e a família de Fehér banhada em lágrimas. E quem não soltou, naquele momento, uma lágrima que fosse? Jogadores, treinadores e equipa médica entraram no hall principal do estádio às 21:50. Miguel e o enfermeiro Duarte Pinto depositaram uma coroa de flores do plantel junto ao local onde seria depositada a urna de Fehér. Os jogadores começaram a chorar. Camacho chamou seis: Hélder, Simão, Zahovic, Nuno Gomes e Miguel (os capitães) mais Argel. Coube-lhes a tarefa de transportar o caixão. A chegada do malogrado jogador aconteceu às 22:30. Foi recebido com palmas, inclusive dos milhares de pessoas que se acotovelavam junto à entrada e entoavam o seu nome. Os jogadores dão um abraço e ninguém consegue conter as lágrimas. Todos os companheiros rodeiam a urna, unidos. Rezam o Pai-Nosso. Depois, o choro compulsivo dos jogadores rasga todos os silêncios, perturba, emociona, desconcerta. Uma camisola número 29 é colocada em cima da urna. Não será usada por mais ninguém. E é neste momento, quando se acredita que nada mais poderá esmagar o sentimento de quem tem por missão relatar factos, que todos gritam: «Miki, Miki, Miki!». Soltou-se o grito em tons de raiva, de desespero, de saudade, de incredulidade. Porque não de incentivo nesta nova viagem que Fehér não escolheu mas de que aprenderá, como em vida, a tirar o melhor partido? Camacho ainda mordeu os lábios durante muito tempo, mas por detrás de um homem que cultivou a imagem de durão está apenas um coração que também chora quando vê partir um dos seus. E ainda hoje soa naquela sala um grito profundo: «Miki, Miki, Miki...» Não há mais 29 De voz embargada, Luís Filipe Vieira falou aos jornalistas ao final da noite: «O Benfica perdeu, além de um grande atleta, um grande homem. A família perdeu aquilo que era melhor: um bom filho e um grande homem. A única coisa que a instituição deve fazer é garantir que a camisola 29 ninguém mais vai vestir. De certeza absoluta.» Agradeceu ainda a «todos os benfiquistas, nomeadamente os que acompanharam Fehér de Guimarães a Lisboa.» Uma alusão justificadíssima, em face das centenas de anónimos que durante o percurso se associaram, de uma forma ou outra, à dor daquele conjunto de pessoas. O dia de ontem foi muito duro. Depois de ter esperado a família de Fehér no aeroporto do Porto, Filipe Vieira chegou ao hospital de Guimarães. Eram 14:30. Odriane, namorada de Fehér, vinha lavada em lágrimas, o pai e a mãe de rostos transfigurados pela tristeza. A comitiva integrava os vices Fonseca Santos e Rui Cunha e ainda José Veiga, Alexandre Pinto da Costa (empresários), Cunha Vaz (director de comunicação), João Salgado (secretário geral), Shéu (secretário técnico) e o médico João Paulo Almeida. Depois de se certificar que tudo corria conforme o previsto, Luís Filipe Vieira falou com emoção: «Neste momento bastante difícil, quero agradecer a esta cidade, ao povo de Guimarães, a todo o pessoal hospitalar, ao Vitória na figura do seu presidente Pimenta Machado e a todos os sócios do Benfica o apoio que nos deram. Sentimos que todos estiveram connosco. Se o Fehér estivesse aqui também vos agradeceria.» A maratona emocional de Filipe Vieira continuava. Na véspera do jogo dormira no hotel da equipa, acompanhou sempre o jogador depois do momento trágico e só teve tempo de ir a casa trocar de roupa para voltar de imediato ao Norte. Autópsia inconclusiva AINDA não foi ontem que se descortinaram as causas da morte de Miklos Fehér. A autópsia demorou quatro horas e meia e foi levada a cabo por um especialista do Instituto Nacional de Medicina Legal do Porto. A ela assistiu o chefe do departamento médico do Benfica, João Paulo Almeida, mas só depois de analisados os tecidos em laboratório é que se poderá chegar a alguma conclusão. Por enquanto só se confirma a paragem cardio-respiratória. Estava previsto que tivesse início apenas ao princípio da tarde, mas os serviços do Hospital Senhora da Oliveira providenciaram tudo para que a autópsia começasse bem cedo. O corpo foi colocado às 10.30 horas para o início dos exames, às 11 horas o especialista do Instituto Nacional de Medicina Legal (INML) do Porto dava início à análise das causas da morte. Entretanto, o chefe do departamento médico do Benfica, João Paulo Almeida, chegava ao hospital para acompanhar a evolução dos trabalhos, que durariam quatro horas e meia. No final, confront pelos jornalistas, o director de serviços daquela unidade hospitalar, Fausto Fernandes, relegava toda e qualquer informação a quem de direito: a Procuradoria Geral da República, entidade responsável pela divulgação dos resultados, mas que por sua vez delega na respectiva Comarca (Guimarães) do Ministério Público e no INML os devidos esclarecimentos. Horas mais tarde, chegou às redacções um sintético comunicado, revelando apenas que a autópsia «não permite ainda conhecer a causa da morte, por não terem sido encontradas lesões que macroscopicamente a revelassem». Lê-se ainda que «foram colhidos tecidos para exames complementares, a nível anátomo-patológico e toxicológico ». A autópsia fora determinada ainda na noite de domingo, na sequência da abertura de um inquérito, prática normal neste tipo de situação. Em declarações à agência Lusa, o director geral do INML, Duarte Nuno, fez questão de avançar as razões para o envio de um especialista do Porto. É que o húngaro teve uma «morte súbita», obrigando a uma autópsia de «grande complexidade ». Por enquanto, apenas se sabe que Fehér morreu devido a uma paragem cardio- respiratória. As causas que a ela levaram poderão ser dissecadas, ainda segundo Duarte Nuno, através de exames de laboratório. Aquele olhar para o infinito... A última coisa que queríamos fazer era esta entrevista. O que Rogério Matias não queria e nunca acreditou ser possível era dar uma entrevista como esta. «A imagem daquele olhar do Miki para o infinito não sairá mais da minha cabeça, nem que viva cem anos», diz o esquerdino do Vitória. A conversa que transcrevemos aqui é só uma homenagem ao avançado do Benfica. As palavras teimam em não nos subir à mente, as teclas parece que nos fogem dos dedos, mas mesmo assim... esperamos que gostes, Fehér. — Não será difícil adivinhar que o dia de ontem terá sido o mais difícil da sua vida profissional... — É verdade. Se não foi o mais difícil, foi dos mais difíceis. — Foi, provavelmente, a primeira pessoa que se apercebeu do que se estava a passar. O que sente uma pessoa que vê um colega de profissão naquela situação? — Houve o lançamento. Fehér viu depois o cartão amarelo, mas estávamos a perder e eu segui com o jogo para fazer mais um ataque na tentativa de ainda chegar ao empate. Quando o Ivan [n.d.r., Djurdjevic] me devolve a bola, olho em frente e vejo o Miki cair. Toquei a bola para fora, pensando sempre que ele tivesse outro tipo de lesão. Nem consigo descrever aquilo que vi quando me aproximei, percebi logo que algo de muito grave se estava a passar. — E... — Comecei desesperadamente a fazer sinal para o banco do Benfica. Entretanto, os colegas do Miki e os jogadores do Vitória correram todos naquela direcção na tentativa de o socorrerem. Mas nada podíamos fazer. O que senti naquele momento é indescritível... — Foi arrepiante ver o estádio inteiro a aplaudir quando deu a sensação de que Fehér poderia recuperar. Pensou que tudo não tinha passado de um susto? — Estávamos todos à espera que o Miki reagisse, que recuperasse, que as coisas tomassem um rumo completamente diferente daquele que veio a verificar-se. E não éramos só nós. O público também estava a viver o mesmo drama e levantou-se para aplaudir a recuperação do Miki. Deram uma demonstração fantástica de desportivismo e solidariedade. Infelizmente, não chegou... — Quando o viu à sua frente procurando obstruir o lançamento de linha lateral, notou nele alguma expressão menos normal? — Nem por sombras. Ele disputou o lance comigo, eu protegi a bola para ganhar o lançamento e não me recordo de qualquer contacto físico. Foi um lance perfeitamente normal... — O resultado perdeu aí todo o significado... — Nem vale a pena falar do jogo quando estamos perante um acontecimento como este. Torna-se tudo tão insignificante... — Qual a última imagem que guarda de Fehér? — A de um jogador muito bom. No tempo em que esteve em Portugal provou sempre a sua qualidade como jogador e como homem. Demonstrou sempre uma personalidade muito forte. Quem trabalhou com ele diz ter sido uma pessoa fantástica. Não me custa nada acreditar... Trocava uma vitória pela vida do Fehér No dia em que completou 41 anos, José Mourinho cancelou todos os festejos. O treinador do FC Porto estava triste. Muito triste. O desaparecimento de Fehér chocou «profundamente» o líder da equipa técnica azul-e-branca, que não hesitou em garantir que «se pudesse, trocava uma vitória pela vida dele». «Toda a comunidade futebolística está de luto», insistiu Mourinho, quase com as lágrimas nos olhos. À saída do treino cumprido ontem no Centro de Formação Desportivo Porto/ Gaia, Mourinho acedeu ao pedido dos jornalistas e comentou a morte de Fehér. As palavras saíram pausadas e muito sentidas: «Queria primeiro endereçar as condolências à família, porque isso é o mais importante: as condolências a uma jovem que esteve prestes a casar com ele e aos pais que perderam um filho querido. A partir daí, é-me dificil estender as condolências, porque toda a gente o perdeu. Qualquer profissional de futebol deste país também se sente um bocadinho de luto. Qualquer adepto, não só os benfiquistas por ser o seu actual clube, como também os bracarenses, os portistas e os salgueiristas que também o tiveram como jogador. » Prosseguindo a sua expressão de pesar, Mourinho observou: «O melhor exemplo de que todos estão de luto é que em Guimarães toda a gente esteve com ele naquele momento e toda a gente sentiu a sua perda. Porque toda a comunidade futebolística o perdeu. O sentimento de tristeza não pode ser muito diferente do sentimento que temos quando um pescador morre no mar, ou quando um mineiro morre numa mina. Foi um futebolista que morreu no campo e é isso que é preciso sublinhar.» «Ninguém tem vontade de festejar» O dia de ontem era especial para o treinador do FC Porto. Completava 41 anos, mas José Mourinho nem quis ouvir falar de festejos. O momento não era propício à alegria: «Tínhamos os frigoríficos carregados de espumante por causa do aniversário do Nuno ontem [anteontem], e do meu hoje [ontem], mas obviamente que os frigoríficos ainda estão cheios, porque nenhum de nós está com vontade de festejar seja o que for. Estamos tristes e temos aquele sentimento de impotência de que, se pudéssemos, trocávamos uma vitória pela vida do Fehér.» José Mourinho não esqueceu o facto de Miklos Fehér ter representado o FC Porto durante vários anos. Um facto que, obviamente, fez aumentar o impacto damorte do húngaro no ambiente de tristeza que se viveu ontem no plantel portista: «No nosso grupo, temos jogadores que foram seus colegas, jogadores que tiveram um passado emcomum com ele, eram amigos dele. Outros, quase não o conheciam, como era o meu caso, porque quase não tive contacto com ele. Mas o sentimento de pesar, de pena e de perda é o mesmo. É em momentos como este que percebemos que uma vitória, uma derrota, um empate, não são importantes. Isto é, certamente, mais importante. » Antes de o treino de ontem ter tido início, ainda no balneário, Mourinho falou com os seus jogadores, de modo a que todos pudessem enfrentar o choque: «Chegámos à conclusão óbvia que todos nós já perdemos pessoas importantes, mas a vida continua. Temos que treinar e temos que continuar a trabalhar. O sentimento vai ser de todos os clubes,mas obviamente que vai ser tudo muito mais difícil no Benfica.» Fernando Santos chocado Fernando Santos treinou Miklos Fehér, no ano do penta do FC Porto, corria a época 1998/99. E ontem não escondia a emoção que o trágico acontecimento do Estádio D. Afonso Henriques lhe causou. À saída do Estádio José Alvalade, onde minutos antes havia orientado o treino do Sporting e onde deu o mote para que se cumprisse minuto de silêncio em memória do malogrado atleta do Benfica, o técnico deixou uma mensagem de solidariedade para com a família de Fehér. «O importante é que se perdeu uma vida jovem, de 24 anos. Quero mostrar a minha solidariedade para com a família, pai e mãe de Fehér», começou por dizer e acrescentou: «Que Deus permita que nunca me aconteça a mim. É uma situação dramática um pai e uma mãe perderem um filho com 24 anos, bem como para todos os que mais perto estavam dele. É muito triste. Foi isso que me chocou muito.» Depois, Fernando Santos continuou o seu discurso. «Ele era um bom rapaz, excelente pessoa e profissional de futebol. Neste momento, os elogios, a procura de culpados… nada é importante. Perante a morte, temos de guardar silêncio. Eu já o fiz e vou continuar a fazê-lo. Vou pedir pela sua alma e que o Senhor o receba bem nos seus braços, pois ele merece. E temos de pedir também pelos seus pais, que devem estar a sofrer horrores. Temos de guardar este momento como de dor, em solidariedade com a família, e não mais do que isso», defendeu. Meu menino querido MANUEL CAJUDA foi o treinador que melhor explorou as qualidades futebolísticas de Fehér, quando ambos estiveram ao serviço do Sp. Braga. Ontem, quando com ele falámos, estava obviamente inconsolável: «Ele era o meu menino querido... » A bonita história da relação de Manuel Cajuda com Miklos Fehér começou no Verão de 2000, talvez até um pouco antes. O treinador entrara no Sp. Braga em Abril de 1999 e logo despertou para as qualidades futebolísticas do jogador, primeiro ao serviço do FC Porto, mais tarde no Salgueiros. E foi, precisamente, no início da temporada 2000/01 que Miklos Fehér entrou em Braga para ser jogador do Sporting local e para ser treinado por Manuel Cajuda. Ainda ninguém o sabia na altura, mas seria com a vermelha camisola do principal clube minhoto que o jogador húngaro conheceu os maiores sucessos: 14 golos apontados em 26 jogos, chegando a liderar, no início da época, a lista de melhores marcadores. Manuel Cajuda foi, pois, o homem que melhor conseguiu explorar as grandes qualidades de Fehér. «Era o número 1» Agora ao serviço do Marítimo, Manuel Cajuda chorou como poucos a morte de Fehér, um jogador que tratava como um filho. Queria-o à força no Marítimo, fez de tudo para conseguir levar o avançado para a Madeira. Até virou a cabeça ao húngaro, que não estava predisposto a sair do Benfica, mas que acabou por ceder aos desejos de Cajuda. Só que o Benfica não o libertou. Ficaram as conversas, de pai para filho, entre duas pessoas que se respeitavam muito e que nutriam grande admiração e afecto. «Era o meu menino querido », disse ontem Cajuda, tentado suster a emoção. Mais do que ninguém, o técnico do Marítimo tem legitimidade para falar de um amigo que partiu, que deixa saudades e um vazio por preencher. Ao longo do dia, Manuel Cajuda falou muito de Miklos Fehér, todos quiseram recolher o depoimento do técnico, que soube aproveitar, melhor que ninguém, as qualidades do avançado húngaro. «Tenho o privilégio de ter vivido com o Fehér os melhores momentos da minha carreira e da dele também», recorda com saudade. «Tive o privilégio de sentir as suas alegrias. Era o número um», reforçou o técnico do Marítimo, com a voz trémula, ressequida da dor. «Tinha a idade do meu filho mais velho. Brincávamos muito e, por razões óbvias, senti isto de uma forma inexplicável. A dor é muita», disse ainda o treinador, que jamais esquecerá a pessoa e o amigo. «Era humilde, muito educado e irradiava simpatia. Nunca vi qualquer defeito nele. Deu-me a sorte de viver a melhor fase da minha carreira mas, infelizmente, o meu menino querido partiu...». Aqueles três golos ao V. Guimarães... A carreira de Miklos Fehér esteve profundamente ligada ao Minho e em particular a Guimarães e à sua equipa de futebol. Pelos melhores e pelos piores motivos. Foi nessa cidade que pela primeira vez jogou 90 minutos, foi frente ao Vitória que pela única vez conseguiu marcar três golos num só jogou... foi em Guimarães que sorriu pela última vez. Fehér chegou a Portugal em Julho de 1998 e seguiu imediatamente para o estágio que o FC Porto estava a realizar em Viseu. O treinador era Fernando Santos e no plantel jogava Jardel, o que deixava pouco espaço para a progressão deste jovem húngaro. Nessa época, Fehér jogou apenas 49minutos e o seu jogo de estreia aconteceu à 7.ª jornada, num Boavista 0, FC Porto, 2. O primeiro golo Fehér marcou o primeiro golo ainda pela equipa do FC Porto, de cabeça e frente ao Salgueiros, a 24 de Setembro de 1999. Nesta mesma época foi emprestado ao Salgueiros e aí iniciou uma caminhada de conquista pelo respeito e admiração do futebol português. Foi com a camisola do Salgueiros que pela primeira vez esteve em campo durante 90 minutos... ironicamente em Guimarães. Marcou o primeiro golo pelo seu novo clube a 27 de Fevereiro de 2000, em casa, frente ao Farense, e acabaria a época em boa forma, marcando golos nas 30.ª, 31.ª e 32.ª jornadas. Dentadas no leão Na época seguinte foi emprestado ao Sp. Braga e realizou a sua melhor temporada. Fez 26 jogos, 14 golos e esteve 2302 minutos em campo. O ponto alto consegui-o logo na 3.ª jornada, quando marcou dois golos na vitória bracarense (3-2) sobre o Sporting. Na jornada seguinte já liderava a lista dos melhores marcadores, com seis golos. Tanto protagonismo permitiu-lhe o regresso ao FC porto. Em má hora, pois seria apanhado num braço-de-ferro entre Pinto da Costa e o empresário José Veiga. De novo Guimarães Em2002/03 assinou pelo Benfica e estreou-se logo na 1.ª jornada, frente ao Marítimo. Substituiu Zahovic e jogou 10 minutos. Sorriu com mais força na 34.ª jornada, quando marcou três golos ao... V. Guimarães. Esta temporada jogou 13 jogos, marcou três golos e actuou durante 447 minutos. Morreu em campo. A sorrir. segunda-feira, janeiro 26, 2004
Futebol – Portas do Estádio da Luz abertas para receber adeptos A direcção do Benfica anunciou, no site oficial do clube, a decisão de abrir a porta principal do Estádio da Luz para receber os adeptos que pretendam homenagear o futebolista encarnado Miklos Fehér, que ontem morreu vítima de paragem cárdio-respiratória durante o jogo V. Guimarães-Benfica. Na nota emitida no site benfiquista, a direcção do clube encarnado, «prevendo a vontade de todos os benfiquistas expressarem em comunidade o seu pesar pelo trágico falecimento do jogador Miklos Fehér», dá conta da decisão de disponibilizar o espaço da entrada principal do Estádio da Luz para o efeito. Ao local já começaram a acorrer, de resto, dezenas de adeptos encarnados, que ali depositaram flores, cachecóis e fotos do jogador, numa última homenagem ao futebolista. A bandeira do Benfica encontra-se a meia haste, em sinal de luto. Benfica – Funeral de Fehér realiza-se 4.ª feira na Hungria O funeral do futebolista húngaro Miklos Fehér, ontem falecido durante o encontro entre Vitória de Guimarães e Benfica, vai realizar-se na próxima 4.ª feira, na sua cidade natal, Gyor, na Hungria. Segundo informações adiantadas pelo director de comunicação do Benfica, Cunha Vaz, à Agência Lusa, o corpo do jogador, que ainda está a ser autopsiado no Hospital Senhora da Oliveira, em Guimarães, deverá chegar ainda hoje ao Estádio da Luz, devendo ficar em Câmara Ardente para que os adeptos benfiquistas possam prestar uma última homenagem a Mikos Fehér. Posteriormente, o corpo do jogador seguirá para a Hungria, onde decorrerá o funeral, que irá contar com a presença de todo o plantel encarnado, elementos dos órgãos sociais e direcção do clube. Para o efeito, o Benfica vai fretar um avião para cerca de 80 pessoas. «Esta tragédia só nos pode fortalecer», diz Tinoco Faria A consternação é geral e as palavras escasseiam para dar voz ao sentimento de pesar que se faz sentir nas hostes benfiquistas. Tinoco Faria foi a imagem da angústia que impera para os lados da Luz, numa curta declaração proferida há escassos minutos. Após deixar uma mensagem no livro de condolências que se encontra no átrio principal do Estádio da Luz, o vice-presidente encarnado foi solicitado pelo jornalista da RTP presente no local a tecer um curto comentário a todo o sucedido. Visivelmente transtornado, Tinoco Faria começou por, educadamente, escusar-se a falar mas, ainda assim, acedeu a deixar uma curta mensagem aos simpatizantes encarnados: «Esta tragédia só nos pode fortalecer», referiu o dirigente, bastante emocionado. domingo, janeiro 25, 2004
![]() sexta-feira, janeiro 23, 2004
Camacho aprovou Ricardinho Camacho estava ao corrente das negociações com o empresário de Ricardinho e a inviabilização do negócio não passou por ele. Perceber as razões que impossibilitaram a vinda de Ricardinho para a Luz transformou-se num mistério que só os protagonistas, uns mais expostos e outros na sombra, poderão desvendar. Contudo, o surpreendente desfecho pode ter apanhado toda a gente de surpresa, menos o treinador espanhol, que terá dado o aval e acompanhou desde o início o processo de contratação de Ricardinho. O cancelamento da transferência foi, portanto, da responsabilidade do Conselho de Administração da SAD, por falta de acordo com o empresário do jogador e quebra de confidencialidade no processo. Camacho manteve sempre uma posição de cautela e foi dessa forma que apareceu aos olhos dos jornalistas. «Esperar para ver...», aconselhou, tomando como exemplos contratações dadas como certas, num passado recente, mas que nunca se concretizaram. No entanto, foi também visível a boa disposição do espanhol, sinal de que, apesar de tudo, acreditava vir a ter à sua disposição um jogador que representaria, uma mais-valia para o plantel. Resignado Esta é apenas mais uma contrariedade para o treinador espanhol, que está consciente da realidade benfiquista e dos problemas financeiros que persistem. Problemas que têm atrasado o reforço do plantel, tão desejado pelo técnico e pelos responsáveis pelo futebol encarnado. A paixão pelo Benfica e a fidelidade aos princípios éticos mantêm Camacho empenhado no projecto e na conquista de resultados desportivos, correndo o risco de arcar com a frustração dos adeptos. Entre os amigos, Camacho lamenta-se de o Benfica não ter pelos menos dois galácticos, «porque seria um clube tão grande como o Real Madrid», mas arrisca ir até ao fim com este plantel... Com o coração nas luvas O departamento médico do Benfica confirmou ontem a notícia avançada por A BOLA: Bossio está a recuperar de uma lesão no ombro esquerdo. Moreira está a representar a Selecção B no Torneio Vale do Tejo e os encarnados estão com o coração nas mãos — neste caso nas luvas—porque não têm substituto se o azar bater à porta. E se Moreira se lesiona? E se for castigado? Duas perguntas que para o Benfica significam, neste momento, uma grande dor de cabeça. Durante o treino de ontem, Bossio apenas trabalhou os membros inferiores porque está a tentar curar-se de uma inflamação no ombro esquerdo. Uma lesão que não é de agora e ainda não foi completamente ultrapassada. Existem indicadores de que na próxima semana o guarda-redes argentino poderá melhorar, mas a verdade é que dificilmente estará em condições de ocupar a baliza no jogo com o Vitória de Guimarães e mesmo no encontro da jornada seguinte, frente à Académica pode não estar a cem por cento. Os encarnados têm, portanto, grandes dificuldades para garantirem um substituto para Moreira, jogador que esta época foi titular em todos os encontros da SuperLiga e jogou sempre os 90 minutos, rubricando boas exibições e conquistando os adeptos. Preparar os jovens À cautela, José Antonio Camacho tem colocado jovens guarda-redes a treinar-se com o plantel da equipa principal. Tem sido assim já há algumas semanas e o treinador espanhol voltou a chamá-los para o treino de ontem de manhã, em Massamá. Hugo Pereira e Ricardo Campos, da equipa B; e Rui Nereu, ainda júnior, foram os guarda-redes ontem integrados na sessão. Camacho dedicou-lhes alguma atenção e, durante os minutos de descanso dos jogadores seniores, foi o próprio Camacho quem treinou estes jovens, fazendo alguns remates e dando conselhos. Reforço urgente A SAD, em sintonia com Camacho, pretende resolver de uma vez estes problemas na baliza e está no mercado para contratar um guarda-redes. Já existem jogadores referenciados e as possibilidades de transferência estão a ser analisadas. Embora este seja um problema momentâneo, Bossio apenas assinou por duas épocas e Camacho entende que Benfica deverá resolver definitivamente o problema e garantir uma boa alternativa para José Moreira. O nome de Quim, guarda-redes do Sporting de Braga, apareceu neste contexto mas por enquanto não se confirma. Passa muito pela opinião de José Antonio Camacho a contratação que o Benfica pensa fazer para reforçar este sector. Zahovic deve jogar no lugar de Nuno Gomes Zlatko Zahovic parece levar alguma vantagem sobre Fehér na corrida pelo lugar de Nuno Gomes na equipa titular para domingo; João Pereira já se treina sem limitações e deve jogar frente ao Vitória de Guimarães. José Antonio Camacho terminou a manhã de ontem, em Massamá, com um treino de conjunto que já transmitiu algumas das ideias do treinador para o jogo com o Vitória de Guimarães. Com Nuno Gomes lesionado (tem uma rotura muscular que o coloca fora de competição durante três semanas), Fehér e Zahovic são os mais sérios candidatos ao lugar em aberto na equipa titular. A julgar pelo treino de ontem, Zahovic leva alguma vantagem nesta corrida. O médio esloveno ficou na equipa que teoricamente reuniu os jogadores que vão entrar de início para o ataque: Simão Sabrosa na esquerda, João Pereira na direita — já está recuperado de lesão muscular na coxa esquerda — e Sokota no centro. Fehér alinhou pela a outra equipa e realizou um bom treino, bastante dinâmico... José Antonio Camacho é quem escolhe, mas neste momento Zahovic parece ser a primeira opção para preencher o lugar. Petit ausente Petit não se treinou ontem e no final da sessão o Benfica explicou que o médio foi autorizado a ausentar-se para tratar de assuntos particulares. Hoje será reintegrado. Petit voltará a formar dupla no meio-campo com Tiago e Camacho também não fará alterações na defesa que jogou a jornada passada, frente ao Boavista. Moreira é dono e senhor da baliza encarnada. Miguel ficará como defesa-direito, Fyssas é o jogador escolhido para a esquerda e no centro jogam Argel e Ricardo Rocha. Hélder, que na semana passada teve alguns problemas físicos, já trabalha sem limitações mas deve continuar no banco de suplentes. Recorde-se, também, que o defesa-central Luisão recupera de uma lesão muscular na coxa direita e neste momento nem sequer faz trabalho de campo. Carlitos, que ontem fez apenas exercícios físicos, também se treinou ontem sem aparentes problemas. Poli Ejido quer Carlitos O Poli Ejido está a tentar contratar Carlitos. O director desportivo do clube espanhol — que disputa a II Divisão — encontra-se em Portugal para negociar e hoje mesmo o assunto pode ficar encerrado. O interesse espanhol surgiu há alguns dias e a proposta foi feita directamente ao Benfica, que posteriormente colocou o jogador e o seu empresário, Manuel Barbosa, ao corrente da situação. O Poli Ejido está na disposição de conseguir o empréstimo de Carlitos, que está em final de contrato com o Benfica, e garantir opção da renovação de contrato com o jogador. Basicamente o clube encarnado beneficiaria porque deixaria de pagar os ordenados do jogador. Director desportivo em Portugal O interesse do clube espanhol é de tal forma efectivo que fez deslocar a Portugal o seu director desportivo, que durante o dia de ontem negociou com Manuel Barbosa os detalhes deste provável acordo. Tudo está dependente do empresário de Carlitos e da vontade do próprio jogador, que não vê com bons olhos a possibilidade de deixar o Benfica para tentar uma aventura na II Divisão espanhola. Recorde-se que no Poli Ejido jogam, neste momento, os portugueses Calado — que já jogou no Benfica — e também o extremo-esquerdo Agostinho, que jogou em Guimarães e Moreirense. Dois argumentos que podem ajudar a convencer Carlitos a aceitar a transferência. Da parte do Benfica existe disponibilidade total para libertar o atleta, que, aliás, foi pouco utilizado durante esta temporada devido a constantes lesões. Manuel Barbosa negoceia com o director espanhol e hoje mesmo deverá ficar decidido o negócio. O Benfica aguarda um contacto do empresário. TIAGO E RICARDO ROCHA ESPERAM AUMENTO Acordo na gaveta Luís Filipe Vieira já chegou a entendimento de verbas para a renovação contratual com Tiago e Ricardo Rocha, mas continua sem colocar o "preto no branco". Enquanto isso, os jogadores continuam a auferir alguns dos salários mais baixos do plantel, apesar de ambos serem titularíssimos na equipa orientada por Camacho. O médio está com a cotação em alta na Europa, mas ganha aproximadamente o mesmo que João Pereira, recém-saído da equipa B Tiago e Ricardo Rocha continuam à espera que Luís Filipe Vieira cumpra a promessa feita aos dois jogadores, ainda antes do acto eleitoral de Outubro último, em que o líder encarnado garantiu que iria dar início ao processo de renovação de ambos os atletas com o consequente aumento salarial. Garantida a vitória nas eleições para a sucessão a Manuel Vilarinho, Vieira chegou mesmo a ter uma reunião em que alcançou um acordo para a renovação dos vínculos contratuais, existindo plena sintonia entre as duas partes no que diz respeito a verbas. Contudo, e apesar do entendimento, os dois jogadores permanecem à espera de um contacto do líder do clube da Luz para colocar o "preto no branco". Por enquanto, o acordo está na gaveta e Tiago e Ricardo Rocha continuam a receber de acordo com os contratos que rubricaram quando se transferiram do Sporting de Braga para o Benfica. Neste momento, Tiago é um dos jogadores com maior cotação no clube encarnado. O médio benfiquista é um nome já bem conhecido por toda a Europa, tendo alguns clubes de nomeada do Velho Continente a seguir atentamente os seus passos. O Barcelona chegou a estar interessado no Verão passado e a Juventus tem o internacional português muito bem referenciado desde que este se estreou ao serviço da Selecção Nacional em Génova num particular com a Itália em Fevereiro último. Apesar de ser um dos activos mais valiosos do Benfica, Tiago é igualmente um dos jogadores com o salário mais baixo na Luz. Para se ter uma noção mais exacta da matéria, dê-se o exemplo de alguns jogadores que não são titulares indiscutíveis na equipa de Camacho e que auferem um salário quase dez vezes superior ao do camisola 30 encarnado. Aliás, neste momento Tiago ganha aproximadamente o mesmo que João Pereira, recém-saído da equipa B. Euro-2004 é "montra" Tiago tem quase presença assegurada no Euro-2004 e a chamada de Scolari contribuirá para o inflacionamento do seu passe e será uma "montra" importante para o médio. Rocha também tem hipóteses de estar presente. quinta-feira, janeiro 22, 2004
Quebra de confidencialidade afasta Ricardinho da Luz Ricardinho não vai vestir a camisola do Benfica. O empresário do jogador esteve ontem em Lisboa, reuniu-se com responsáveis do clube encarnado mas não conseguiu contornar uma condição considerada essencial para que o negócio pudesse ser concretizado: a confidencialidade. Apesar disso, Luís Filipe Vieira não desmoraliza. «O Benfica está satisfeito com os jogadores que tem», disse. A quebra de confidencialidade num negócio que há algum tempo vinha sendo preparado através de múltiplas conversas preliminares entre o Benfica e o representante do jogador acabou por afastar Ricardinho da Luz. Luís Filipe Vieira não perdoou a fuga de informação e as conversas preliminares não passaram disso mesmo, não tendo sido iniciadas quaisquer negociações entre as partes. Ontem de manhã, o empresário do jogador, Rubéns Pozzi, estava relativamente optimista, ele que ficou hospedado no mesmo hotel em que Luís Filipe Vieira almoçou e se reuniu com o presidente do Belenenses, Sequeira Nunes. Porém, os dois não se cruzaram. Pozzi foi contactado no hall do hotel por uma funcionária do Benfica e sairia mais tarde discretamente para se encontrar com responsáveis encarnados num local não vigiado por jornalistas. Luís Filipe Vieira abandonaria a unidade hoteleira algum tempo depois, cerca das 16.15 horas, e garantiu que Ricardinho não era jogador do Benfica, deixando a entender que só muito dificilmente o negócio se concretizaria. «Não estive reunido com nenhum empresário. Estive a conversar com o director do hotel. Já disse que o Benfica está muito satisfeito com os jogadores que tem, o próprio treinador também está satisfeito e isso ficou demonstrado no último jogo que fizemos», acentuou o presidente do Benfica. Ao início da noite, o comunicado do Benfica e de Rubéns Pozzi confirmaria as más notícias para a nação benfiquista. Ricardinho não vai vestir a camisola do Benfica, pelo menos para já. Camacho puxou pela garganta Camacho provou ontem que tem um timbre de voz possante: durante o treino, tantas vezes rasgou os silêncios com palavras de ordem. Por vezes mais duras, exigindo ora rapidez, ora concentração ora qualidade. Mas acabou por terminar o treino com muito bom humor, numa deliciosa rábula com Simão e Fernando Aguiar. O treinador espanhol insistiu ontem no treino por sectores. Com particular insistência no desenvolvimento de lances ofensivos. Permitir maior profundidade e largura do jogo de ataque benfiquista foram filosofias subjacentes a parte dos exercícios a que os jogadores se submeteram. Nem sempre tudo corria conforme os parâmetros de exigência de José Antonio Camacho. «Mais velocidade», gritou a dada altura. Estava impaciente com o ritmo imposto na circulação de bola. A mesma impaciência que o levou a novo grito quando percebeu que os jogadores se mostravam pouco acutilantes na hora de facturar. «Estamos aqui para marcar golos...», voltou a protestar. Dois exemplos apenas para retratar muitas outras frases que proferiu no treino. Camacho gesticulou muito. Por vezes foi mais duro num ou noutro comentário. Nada que excedesse o normal picar dos jogadores para que não perdessem por um segundo a concentração e os objectivos do treino. O grau de exigência terá de ser cada vez mais elevado, a necessidade de mostrar serviço e de aperfeiçoamento dos processos de jogo leva a que Camacho não facilite um segundo que seja. No final... risos Os jogadores também levaram muito a sério o treino. Simão, no final, protestava com algumas situações de jogo mal concluídas. «Depois queixam-se do árbitro», comentou, em jeito de brincadeira. Fernando Aguiar explicou então algumas situações em que garante ter feito o humanamente possível. Camacho, depois de um ou outro raspanete, pôs fim à conversa com um bem humorado comentário: «É simples. Façam uma exposição para a Liga e esperem que eles decidam.» Pronto, os jogadores riram, fizeram alguns alongamentos e recolheram aos balneários. Antes disso, tinham feito aquecimento, circulação de bola entre duas equipas, lances de ataque e finalização e treino de conjunto. Nesta fase, não foi possível ainda avaliar qual a decisão de Camacho quanto ao esquema táctico para Guimarães e qual o substituto de Nuno Gomes e até João Pereira, ainda a recuperar de lesão. Não quis provocar Argel marcou frente ao Boavista o seu primeiro golo na SuperLiga e na festa do golo sentou-se no banco. Pensou-se de imediato numa provocação a Camacho por o ter relegado à condição de suplente nos jogos anteriores. «Não», diz o brasileiro. Tudo não passou de «uma aposta com os companheiros de equipa no balneário». «Não quis de forma alguma desabafar ou provocar alguém.» Foi desta forma que Argel se explicou ao site oficial do Benfica, fazendo depois a esperada referência a José Antonio Camacho: «Infelizmente surgiram muitos comentários incorrectos. Tenho um grande respeito pelos adeptos do Benfica, pelo clube e pelo meu treinador, que é um excelente profissional e que admiro bastante. Não sou burro nem ignorante. Foi tão-só uma comemoração junto dos meus companheiros no banco de suplentes.» Depois das explicações dadas, Argel comentou o facto de ter regressado à titularidade. «Faço o meu trabalho normalmente todos os dias com a mesma aplicação. Sou sempre a mesma pessoa, tanto nas vitórias como nas derrotas. Jogando ou não jogando, nunca desanimo. Na minha vida nunca alterei a minha linha de conduta. Saí da equipa numa altura em que estava muito bem e nunca contesto as opções do treinador», disse. O brasileiro referiu ainda que nem pensa que está em final de contrato e comentou o próximo jogo: «Os jogos com o V. Guimarães são sempre espectaculares. É um adversário difícil e prevejo uma partida muito parecida com a do Boavista. A nossa equipa vai ter de estar novamente muito forte.» Roger perde espaço e tempo O tempo escasseia para Roger. A intenção da SAD é colocar o jogador no mercado se até ao final desta época o brasileiro não conseguir confirmar as qualidades que o trouxeram a Portugal. Esta segunda volta do campeonato será o tempo limite para Roger conseguir convencer a SAD e José Antonio Camacho de que pode ser útil ao Benfica. No jogo da última jornada, frente ao Boavista, o brasileiro nem sequer foi opção para o banco de suplentes e isso representa mais um indicador das ideias do treinador espanhol. Camacho pretende jogadores de equipa, com maior capacidade defensiva em detrimento de artistas que privilegiam a bola no pé. Nesse sentido vai também o recente interesse do Benfica em Ricardinho, um jogador com características diferentes das de Roger mas que ocupa, no terreno de jogo, precisamente a mesma posição. A intenção de dispensar Roger não é de hoje, mas o facto de ser um jogador caro e de ainda ter contrato com o clube encarnado até 2005... torna difícil a colocação. A possibilidade mais forte é o regresso ao Brasil, mas neste momento esse mercado está fechado. Portanto, segundo A BOLA apurou, a SAD está determinada a resolver o que considera ser um problema e está disposta a esperar apenas até final desta época, partindo do princípio de que o jogador ainda possa surpreender. O carinho do público benfiquista por Roger é, também, um dos pontos que levaram o Benfica a adiar consecutivamente esta situação. Nenhum jogo a titular Esta época, Roger ainda não jogou nenhum jogo da SuperLiga como titular. Entrou de início mas penas na Taça de Portugal, frente ao Estrela da Amadora. Assim, o brasileiro contabiliza apenas 262 minutos em campo, marcando dois golos. Bonitos, é certo, mas sobre os quais o treinador disse apenas que não eram importantes porque a equipa estava a ganhar folgadamente, preferindo os golos decisivos que valem empates ou vitórias. A performance de Roger neste campeonato é realmente modesta e vai ao ponto de apenas uma vez, frente ao Nacional da Madeira, ter conseguido permanecer 45 minutos em campo. As lesões e problemas físicos também têm atrapalhado os planos do brasileiro e ontem, no treino da manhã, voltou a estar ausente, desta vez devido a uma gripe. Guarda-redes é prioridade A contratação de um guarda-redes é considerada prioritária pelo Benfica. Bossio tem alguns problemas físicos e se Moreira se lesiona ou por qualquer motivo fica impedido de jogar... há problemas para a equipa. Está igualmente em estudo a contratação de um médio e de mais um defesa-central, mas isso não quer dizer que venham ainda este mês. Bossio voltou ontem a treinar-se de forma condicionada e ainda não está totalmente recuperado de uma lesão no ombro esquerdo. Isto equivale a dizer que no plantel não existe um substituto em condições perfeitas para alternar com Moreira, caso o titular da baliza encarnada se lesione, seja penalizado disciplinarmente ou não possa jogar por qualquer outro motivo. Será também com esta consciência que o treinador, José Antonio Camacho, coloca com frequência guarda-redes das equipas de formação nos treinos da equipa sénior. Portanto, a SAD considera prioritária a contratação de um guarda-redes e é neste sentido que recentemente voltou a falar-se no nome de Quim, guardião do Sporting de Braga. Um interesse que, entretanto, parece ter arrefecido. Bossio renovou por dois anos, no início desta temporada, mas o Benfica está realmente atento ao mercado para reforçar este sector do plantel. Reforçar a defesa Camacho tem ideias muito precisas sobre os reforços que pretende e a SAD está em sintonia com as ideias do treinador espanhol. Outra das posições que os responsáveis pelo futebol benfiquista pretendem reforçar é a de defesa-central, apesar de no defeso terem contratado Luisão ao Cruzeiro de Belo Horizonte. Esta intenção está também relacionada com o facto de Hélder e Argel estarem em final de contrato e ainda não é líquido que continuem no Benfica. Por enquanto os dois jogadores ainda não foram contactados nesse sentido. O terceiro reforço pretendido é um médio de características atacantes, mas que facilmente se possa envolver em tarefas defensivas, privilegiando a equipa e a estratégia. O Benfica está no mercado e tem jogadores referenciados, como o prova os recentes contactos com Ricardinho (ver página 15). Sem pressa para contratar Apesar de conscientes da necessidade de melhorar a qualidade do plantel, os administradores da SAD, assim como o treinador, preferem esperar até ao final da época para contratarem os jogadores que realmente interessam. A capacidade financeira do Benfica não é a melhor, o mercado não está acessível e Camacho revela-se intransigente nas suas ideias sobre a equipa. Se não for possível contratar os melhores... não se contrata. É neste contexto que aparece a aposta clara da SAD no actual plantel e a confiança de que estes jogadores possam superar-se e surpreender nesta segunda volta do Campeonato. |
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